Criando Anne Frank.

Nessa Quarta, vamos apresentar o balé Anne Frank. Anne Frank foi criado para a nossa companhia em abril de 2015 pelo bailarino brasileiro Reginaldo Oliveira.

Não posso continuar a falar de Anne Frank sem antes apresentar o meu amigo Reginaldo. Reginaldo Oliveira cresceu no Rio de Janeiro, e depois de alguns anos muito bem sucedidos no teatro Municipal, se encontrou de mala e cuia na Alemanha, mais especificamente na companhia de Karlsruhe, onde trabalha desde então como bailarino. Há sete anos atrás teve a oportunidade de coreografar um balé para uma noite de bailarinos jovens que acontece bienalmente, e não parou mais.

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A primeira vez que trabalhamos juntos foi em 2012, na coreografia Torn, que abriu caminho para outras oportunidades. O Reginaldo consegue ser bastante exigente mas ao mesmo tempo muito aberto a criatividade dos bailarinos com os quais trabalha. Durante um processo de criação, o bailarino deve estar aberto a qualquer ideia e direção que o processo possa tomar. Somos meros instrumentos de materialização da visão do coreografo, e para fazer isso acontecer eu tento deixar qualquer julgamento fora da sala de balé e me entregar cem por cento ao projeto. E como eu amo criações! O balé de repertório é sempre uma honra de dançar com toda sua pompa e história, mas criações são especiais, é a chance de expressar algo que nunca foi feito antes e ter a oportunidade de colocar meus dez centavos em cada projeto é indescritível. Aí acontece que o Reginaldo adora criar, e eu adoro dar asas a criações, ou seja, trabalhamos muito bem juntos…

 

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Quando eu fiquei sabendo que o Reginaldo criaria Anne Frank, eu fiquei muito feliz. Eu já tinha lido o livro algumas vezes, e sempre tive muito interesse pela história da Segunda Guerra Mundial. Por ser a guerra mais devastadora da história, os seis anos que se arrastaram depois que Adolf Hitler invadiu a Polônia deixaram mais de 50 milhões de mortos. Eu pessoalmente me sinto responsável por manter essa história viva para que ela não volte a se repetir no futuro. Eu estava preparada para dar o melhor de mim para que esse balé fosse um sucesso. Na época, eu tinha tempo e energia de sobra, os quais eu felizmente doei ao Reginaldo.

Uma criação consiste em dias muito produtivos e dias péssimos. às vezes, tudo rola, todo mundo está feliz, a sala repleta de bailarinos suados, e o processo até parece que é fácil. Mas tem dias em que horas de repetição e trabalho acabam em meio minuto de material usável.

A quantidade de material que um coreografo extrai de nós é muito maior do que a quantidade de coreografia que vai ao palco. É um processo de seleção quase tão bruto quanto a famosa teoria de Darwin. Somente o melhor material vê o foco de luz do palco, o resto acada em algum USB STICK jogado por aí. Algumas coisa são recicladas para outras coreografias, mas outras nunca viverão para ser mais que lixo eletrônico. Quase tudo que fazemos na sala de aula é gravado, editado, e quebrado em vários passos. Uma criação nada mais é que um enorme quebra cabeça, os passos vencedores são encaixados em uma ordem que funcione bem, muitas vezes totalmente diferente de como foram criados. é um processo exaustante e vez ou outra frustrante, especialmente quando o corpo já aprendeu uma determinada sequencia que acaba sendo mudada. Mas também é um desafio físico e mental, e essa é uma das razões pela qual eu amo tanto as criações.

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Durante o segundo ato de Anne Frank, o público tem uma visão do interior de um campo de concentração. Na maioria dos campos, mulhere e homes eram separados, por isso seguimos Anne pela seção feminina. É uma cena forte e muito importante. Com quinze meninas no palco, tentamos transpassar o sofrimento dessas mulheres que eram ao mesmo tempo desamparadas e fortes. Como algumas pessoas foram prisioneiras por anos, os horrores que ali se passavam viraram rotina, e muitos dos sobreviventes disseram manter uma luta constante com sua própria humanidade. Para honrar o sofrimento dessa pessoas, trabalhamos todos juntos com Reginaldo para criar uma linguagem de movimentos que mostra a rotina de violência, submetendo nossos corpos ao extremo físico de cada uma. No final da noite não tem um joelho que não esteja roxo, mas tudo vale a pena no momento em que a cortina se fecha e os aplausos começam.

Dê uma olhada no trailer oficial:

Espero que Anne Frank volte com o mesmo sucesso que encerrou a temporada passada.

By Life Between lines.

 

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