O ano em que aprendemos o verdadeiro sentido da paciência.

O que eu posso dizer, era de se esperar. Desde pequena eu passo o ano de calcinha nova apesar de não ser supersticiosa. Mas esse ano nem a calcinha nova, amarela por sinal, ajudou.
Em novembro de 2019 eu descobri um pequeno caroço no pescoço. Eu demorei pra ir no médico porque, afinal, quem procura acha. Entre a minha demora, as férias do médico e a falta de patologistas em Salzburgo, na noite de ano novo eu estava ansiosamente aguardando o resultado da autópsia. E, acredite ou não, quando o relógio bateu meia noite a primeira coisa que senti foi preocupação.
E sim, eu ainda estou preocupada desde o dia 01/01/2020.
De primeiro eu me preocupei, é claro, se estava com câncer. Quando descobri que meu tumor era benigno, me preocupei em tirar licença médica para a operação e em perder os espetáculos da temporada (sabia de nada a inocente).
Fevereiro chegou e eu consegui marcar a operação para Junho, ou seja, espetáculos garantidos.
Veio então a preocupação de passar pelo pós operatório sozinha. Nada que uma ligação para a mamãe não resolva, ela adora uma desculpa pra vir de todo jeito. Ou seja, com a companhia e comida de entrega garantida (mamãe não cozinha) a minha recuperação seria moleza.
Metade de fevereiro e a nossa estreia foi um sucesso, bora pra próxima preocupação. Só temos quatro semanas para estrear a próxima produção, será que dá pra terminar?
Março vai passando e o tempo vai aumentando em proporção direta ao nível de preocupação, que estava batendo recorde. Mal sabia eu o quanto me superaria no quesito capacidade de preocupação.
Foi aí que começamos a ouvir sobre um novo vírus, um tal de corona, sim, igual a cerveja. Eu prezo por ser uma pessoa bem informada, mas esse vírus estava aterrorizando lá na China né, meio longe, acho que não chega na Europa.
Depois de uma rápida pesquisa no google pelos sintomas (sou hipocondríaca desde sempre) e uma leve tirada de sarro do meu amigo chinês, decidi que não ia me preocupar com isso, afinal, tinha preocupações suficientes.
Alguns dias mais tarde, o vírus chegou na Itália. Mas Italiano é quase brasileiro, meu tipo de europeu preferido. Adoram uma festa, aglomeração. Vou esperar pra me preocupar quando chegar na Alemanha.
Peraí, já chegou? Ok, vai pra lista de preocupações, mas bem abaixo da minha estreia e do meu Botox vencido.
Daí pra frente foi uma avalanche.
A Áustria começou a apresentar alguns casos, logo em seguida já estava em Salzburgo.
Estávamos no palco nos preparando para um ensaio geral quando disseram que alguém da orquestra estava com suspeita. A orquestra não vem. O coro também cancelou. Toda aquela saliva né, realmente perigoso.
Como sempre, os bailarinos ainda estavam no palco. Aliás, os bailarinos são sempre os últimos a abandonar o navio, seríamos ótimos soldados.
Acho que agora estava na hora de se preocupar bastante.
Depois de uma conversa com o intendente do Teatro fomos mandados pra casa. O país vai entrar em lockdown, e em duas semanas receberemos novas informações.
Foi aí que eu aperfeiçoei a arte da preocupação.
Eu me preocupei se pegaria corona, me preocupei com a morte da minha família, me preocupei com a morte de qualquer pessoa, me preocupei com a quantidade de papel higiênico, me preocupei se tinha pouca comida em casa, me preocupei se estava sobrando muita comida em casa, me preocupei em sair de forma, me preocupei em voltar em forma, me preocupei com o lento declínio do meu relacionamento confinado em quarentena, me preocupei com o contínuo declínio do meu relacionamento pós quarentena, me preocupei com o corte do meu salário, me preocupei com o fechamento do teatro, me preocupei com voltar aos palcos, me preocupei com a qualidade do meu trabalho quando voltasse aos palcos, me preocupei com abraçar pessoas, me preocupei com o silêncio angustiante que paira no ar quando você não abraça a pessoa ao cumprimentar…
Esse ano redefiniu a vida como eu a vivia, e como eu me sinto sobre tudo.
Eu tomei a decisão de deixar o meu país em busca da minha carreira, mas não ter perspectiva de rever a minha família me fez passar muitas noites em claro.
Eu me acostumei com a solidão, e tive ataques de pânico quando o dia do primeiro ensaio com meus colegas foi se aproximando. Como assim, vou encostar no suor de alguém? O meu normal passou a ser inimaginável!
Eu revisitei meus medos e desenvolvi novos todos os dias. Nunca vou esquecer o dia que fui ao supermercado de máscara pela primeira vez. Estava morta de preocupação que a minha humilde máscara feita a mão era muito colorida. Irracional, eu sei. Agora já me parece outra vida.
Claro, esse ano também me trouxe coisas positivas. Eu aprendi a apreciar inúmeras coisas que antes não eram prioridade e trabalhei (e muito) na minha paciência, ou na falta dela. Descobri novos hobbies e fiz novos cursos, acho que ninguém sabia o quanto é possível fazer em casa com um computador!
“Sem desculpas” tomou um novo significado. Mas ainda assim, a preocupação e o “não saber” deixaram uma marca emocional que vou carregar comigo por um tempo.
E sim, poderia ser pior. Poderíamos estar em guerra, e o Trump poderia ter sido reeleito. Mas eu senti que vivi em uma guerra constante com as minhas preocupações.
Moral da história, eu te desejo um 2021 cheio de saúde, amigos, companhia, amor, risadas e dias de sol. E independente da festa (sem aglomeração por favor), com ou sem calcinha nova, quando o relógio bater meia noite, não se preocupe!

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