A essencialidade do não essencial.

Já se passou um ano desde que fomos para casa no meio do ensaio e foi anunciada aquela primeira quarentena, e naquela época eu nunca teria imaginado o quanto essa crise duraria e as consequências que teria na nossa vida.

Lockdown agora é uma palavra presente em quase todos os meus diálogos, assim como uma ameaça diária. Eu sigo extremamente impressionada com o fato de nunca ter pensado na quantidade de bactérias presentes todos os dias no supermercado, e acredito que ser servido em um restaurante vai virar um daquelas histórias que contamos aos netos: quando eu era jovem a gente ia nos restaurantes e pessoas chamadas garçons e garçonetes traziam a comida na mesa… ah os velhos tempos!

Agora, brincadeiras à parte, precisamos falar sobre a Arte. A coisa mais essencial e presente na minha vida, que faz parte de cada célula do meu corpo foi rápida e permanentemente classificada como “desnecessária”.

Se tornar artista demanda uma quantidade incrível de coragem. Escolher se tornar bailarino ao invés do tão sonhado advogado ou engenheiro é uma demonstração de fé na vida. Até na Alemanha onde Cultura é uma coisa seríssima, a Arte é uma escolha rara entre os jovens. Eu cursei uma faculdade de dança na Alemanha, e por mais que tivesse muitas colegas alemãs no meu primeiro ano, poucas se formaram comigo. Algumas procuraram outras faculdades, mas a maioria optou por seguir uma carreira “mais segura”. Eu entendo completamente. Existem muitos artistas de alma, mas viver de arte é uma prova de resiliência diária. Especialmente agora. Durante a maior crise da nossa geração (falo do meu ponto de vista extremamente privilegiado) estamos deixando os nossos artistas na mão!

Nesse ano de pandemia eu tive três espetáculos, um ensaio geral aberto ao público e uma filmagem para ser exibida online. Ao mesmo tempo trabalhamos as nossas sete horas diárias ensaiando e criando espetáculos que nunca aconteceram. Por favor, não me entenda mal, não estou reclamando. Tenho consciência da imensa sorte de ter um contrato fixo e o apoio do meu teatro para continuar indo ao estúdio todos os dias. O propósito deste texto é simplesmente trazer um pouco de perspectiva e questionamentos. Enquanto eu continuei trabalhando, muitos dos meus colegas artistas estão sendo extremamente afetados pela atual situação.

Com teatros fechados e produções canceladas muitos artistas freelances tiveram contratos encerrados sem pagamento, enquanto bailarinos passam meses fazendo aula dentro de casa, e por aí vai… Nós somos obrigados a achar uma solução melhor!

Não existe explicação para o fato de que enquanto teatros continuam vazios aviões seguem voando cheios. Existe aquele argumento que viagem é essencial, e em muitos casos realmente é. Mas o meu feed do Instagram está cada vez mais cheio de viagens “essenciais” para a praia.

Esse é o momento de nós artistas nos unirmos, de nos reinventarmos e provar que a Arte é essencial, Cultura é essencial, e cabe a nossa geração mante-la viva! Agora mais que nunca temos que apoiar aqueles que tem coragem suficiente para viver de arte. Temos que lutar para que as crianças tenham a possibilidade de continuar escolhendo a arte no futuro.


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